Hoje maravilhei-me com pombos a esvoaçar no céu de Cacilhas. Comovi-me e chorei. Saltitava, batia palmas e dizia "Lindo, lindo!" enquanto os via rodopiar na minha cabeça e ouvia, vejam só, as asas num ruido ritmado e confortável (sinestesia). Inventei um bom bocado os motivos para aquele rodopio incessante na mesma linha. Ele, a minha cara metada, tentava os melhores enquadramentos para a fotografia e deixou-me disparatar à vontade... Aproximei os meus olhos do encanto daquele voo persistente e coordenado, pela objectiva, e captei outro pombo, vindo sabe-se lá de onde (do Rossio, talvez!!) que, esbaforido, se esforçou por juntar ao bando. Aí lembrei-me do Fernão Capelo Gaivota. Era com gaivotas, de facto, mas ocorreu-me o ensimento sobre o voo... os objectivos individuais quando vividos em grupo e todo o caminho que se percorre nessa aprendizagem. O ponto alto deste fim de tarde foi quando começo a ver um homenzito a acenar com uma bandeira... a apitar "numa coisa própria com som para pombos" e os bicharocos a regressarem ao poiso. Alguns mais teimosos não se faziam rogados e prolongavam o passeio. Aos poucos e poucos diminuiram, e um, porque há sempre um teimoso, uma ovelha negra, seja lá o que for... continuou no ar mesmo depois de terem todos findado o voo. Esta espécie de "bichos raros" que continuam a voar depois de todos os outros, ditos "bichos normais", terem parado está sempre reprentada em todos os recantos, isso é certo. E ainda bem! Deliciei-me com todo aquele "processo" tão metódico, aquela combinação(?!?) entre o criador e os pombos. Nunca tinha assistido a este ritual e encantei-me. Perdi-me... Entretanto o teimosinho regressou à casota. O céu ficou sem rotas aparentemente definidas. Estava silencioso e azul, a fugir para o cinzento. Foi mais um daqueles episódios do dia-a-dia, como o da mulher que no autocarro cantava bem alto para todos "Love, love me do..." intercalado com "Deus é o Pai todo poderoso..." num tom firme e uma voz arrrojada de esganiçada. Há momentos que marcam. Que mereciam um filme mais além da memória e da história em tom de conto. É que hoje maravilhei-me com pombos a esvoaçar no céu de Cacilhas. AHH!! Pois é.. e então, o pombo do Rossio??! Qu'é dele?!